CrossFit e Canetas (Ozempic/Mounjaro): Dá para conciliar?

Entenda se é possivel conciliar o uso das "canetinhas milagrosas"com seus objetivos dentro do Box. Sabia que já existe um medicamento sendo pesquisado que AUMENTA os músculos sem exercício?

ALUNOSPROFESSORESESTÉTICA

Renato Koji

1/1/20265 min read

Canetas Emagrecedoras e CrossFit: dá para conciliar — ou existe um preço que ninguém te conta?

Se você treina CrossFit com regularidade e começou a considerar o uso das chamadas canetas emagrecedoras, provavelmente vive um dilema comum:

  • você treina, se dedica e aparece no box

  • mas o resultado estético não acompanha o esforço

  • enquanto isso, vê pessoas emagrecendo rápido com medicamentos como Ozempic, Wegovy, Mounjaro ou Zepbound

A pergunta surge quase automaticamente:
“Será que isso funcionaria para mim também?”

É importante começar com honestidade: essas medicações funcionam para emagrecer. Elas não são enganação nem milagre. Elas cumprem bem o papel de reduzir peso corporal.

A questão que quase nunca é explicada com clareza é outra:
o que acontece quando você tenta conciliar esse tipo de medicamento com uma prática que depende de intensidade, potência e recuperação, como o CrossFit?

1) Por que as canetas emagrecedoras funcionam tão bem?

O mecanismo dessas medicações é relativamente simples e extremamente eficiente:

  • redução significativa do apetite

  • aumento da saciedade

  • menor ingestão calórica diária

  • em muitos casos, atraso no esvaziamento gástrico

Na prática, a pessoa passa a comer menos sem precisar sustentar uma luta constante contra a própria cabeça. Para quem sempre teve dificuldade com controle alimentar, isso facilita muito a adesão ao emagrecimento.

O ponto fundamental é entender o efeito colateral inevitável desse processo:

quanto mais agressivo o déficit calórico, maior o risco de perda de massa magra.

Os dados clínicos mostram que, em média, entre 25% e 40% do peso total perdido com essas medicações pode vir de massa magra (músculo, água e glicogênio), dependendo principalmente de:

  • ingestão proteica

  • presença ou não de treino de força

  • velocidade do emagrecimento

  • tipo de medicamento utilizado

Ou seja, as canetas facilitam o emagrecimento.
A preservação de músculo depende do que a pessoa faz em paralelo.

2) Diferenças práticas entre as principais canetas (com nomes comerciais)

Para quem treina CrossFit, a diferença entre essas medicações não está apenas no percentual de peso perdido, mas em fatores funcionais muito claros: tolerância, capacidade de se alimentar e energia disponível para treinar.

Semaglutida — Ozempic / Wegovy

  • Redução de apetite mais agressiva

  • Náuseas e indisposição frequentes

  • Grande dificuldade de ingerir proteína suficiente

Na prática clínica, isso costuma empurrar a perda de massa magra para a faixa mais alta — próxima de 35–40% do peso perdido, especialmente quando não há treino de força bem estruturado.

Para quem faz CrossFit, isso impacta rapidamente:

  • força relativa

  • recuperação

  • estabilidade em movimentos ginásticos

Tirzepatida — Mounjaro / Zepbound

  • Maior potência na perda de peso

  • Em média, melhor tolerância alimentar

  • Maior chance de manter ingestão proteica adequada

Em cenários bem acompanhados, a perda de massa magra tende a ficar mais próxima de 25–30% do peso perdido, o que faz dela, hoje, a opção mais factível para quem tenta manter algum nível de treino, desde que com ajustes claros.

Retatrutida (em estudo, não aprovada)

  • Ainda não licenciada

  • Não disponível no mercado

  • Dados restritos a estudos clínicos

O diferencial teórico é a atuação também no glucagon, aumentando mobilização de gordura e disponibilidade energética.
Isso pode reduzir a necessidade do corpo recorrer ao músculo como combustível — desde que haja ingestão proteica adequada e estímulo de força.

Importante reforçar: não é uma droga que protege músculo sozinha, mas que cria um cenário metabólico potencialmente menos agressivo.

3) O CrossFit cobra energia — e energia não aparece do nada

CrossFit é uma modalidade baseada em potência: força aplicada com velocidade, repetidamente, sob fadiga.

Para isso, o corpo depende fortemente de energia disponível, especialmente de glicogênio muscular.

Quando a ingestão calórica cai de forma relevante, o padrão costuma ser previsível:

  • menor disponibilidade de glicogênio

  • sensação constante de cansaço

  • pior recuperação entre sessões

  • queda progressiva de carga, ritmo e densidade

Você pode continuar indo ao box.
A pergunta honesta é: você ainda está treinando CrossFit ou apenas executando movimentos de CrossFit?

4) O que normalmente acontece com a performance

Na prática, alguns padrões aparecem com bastante frequência:

  • queda de potência: o treino vira sobrevivência

  • redução de carga e volume

  • náusea e desconforto, especialmente em inversões, impacto e esforço intenso de core

  • perda de massa magra, quando a ingestão proteica cai

No CrossFit, isso não é apenas estética.
Perder massa magra compromete força relativa, ginásticos, levantamentos e capacidade geral.

5) Dá para usar a caneta e continuar treinando? Depende — e de como você treina.

Aqui está um ponto essencial:
o que costuma ficar inviável para muitas pessoas não é treinar, mas manter o CrossFit clássico de alta intensidade, com alto volume metabólico e grande demanda energética.

Isso não significa parar de treinar.
Significa mudar temporariamente a lógica do treino.

Quanto maior a intensidade metabólica em um cenário de baixa disponibilidade energética, maior tende a ser a perda de massa magra.

Por isso, a estratégia mais inteligente ao usar essas medicações é priorizar treino de força, utilizando os próprios movimentos do CrossFit, mas com outra intenção.

Na prática, isso significa:

  • manter o treino regular

  • priorizar padrões fundamentais:

    • agachamento

    • deadlift

    • press e supino

    • pull-ups e variações strict

  • reduzir volume metabólico excessivo

  • trabalhar com cargas progressivas e boa execução técnica

Esse tipo de estímulo envia o sinal mais importante ao organismo:
“esse músculo é necessário.”

Quando isso é combinado com ingestão adequada de proteína, a perda de massa magra — que pode chegar a 25–40% do peso perdido — pode ser significativamente atenuada.

O erro mais comum

Tentar manter o mesmo volume, a mesma intensidade e o mesmo estilo de WOD, agora comendo muito menos.
O resultado costuma ser fadiga extrema, pior recuperação e maior catabolismo.

E aqui entra um ponto lógico e inescapável:

Se você usar a caneta, vai precisar obrigatoriamente de acompanhamento nutricional.

Se é assim, vale a pergunta:
por que não começar pelo controle nutricional antes da caneta?

Muitas pessoas descobrem nesse processo que:

  • não ingerem proteína suficiente

  • dormem mal

  • ou treinam de forma inadequada para o próprio nível

Especialmente para quem já não é iniciante, um treino mal ajustado pode gerar estagnação tanto de performance quanto de composição corporal.

6) O ponto fora da curva: ganhar ou preservar músculo sem treinar resolve?

Além das canetas, existem pesquisas com drogas como o Trevogrumab, associadas ao bloqueio da miostatina — proteína que limita o crescimento muscular.

A proposta é:

  • comer menos

  • perder menos músculo

  • ou até ganhar massa muscular

  • tudo isso sem depender de treino intenso

À primeira vista, parece resolver o problema.

Mas, para quem faz CrossFit, a pergunta relevante não é quanto músculo você tem, e sim:

o quanto esse músculo é capaz de produzir força, potência e trabalho.

O aumento de massa muscular sem ganho proporcional de capacidade neuromuscular pode gerar:

  • mais peso corporal

  • sem aumento equivalente de força relativa

  • pior relação peso × capacidade

Em termos práticos, músculo sem função pode atrapalhar a performance.

Além disso, é fundamental reforçar:

  • o Trevogrumab não está aprovado

  • não existe mercado real para esse tipo de abordagem

  • trata-se de campo de pesquisa, não de solução disponível

Conclusão: afinal, o que você busca quando treina?

As canetas emagrecedoras funcionam para emagrecer.
Isso é fato.

O que muda é o custo funcional desse emagrecimento.

Para quem faz CrossFit, a decisão não é apenas sobre balança, mas sobre prioridade:

  • você treina principalmente por estética?

  • ou para ser mais forte, mais capaz e mais funcional?

  • se emagrecer significar reduzir potência e performance, isso vale a pena para você?

O CrossFit nunca foi sobre atalhos.
Ele sempre foi sobre construir um corpo capaz.

No fim, nenhuma caneta responde essa pergunta.
Ela só deixa a escolha mais evidente